SANGUE DA TERRA

Na natureza não existe linearidade, mas sim, ciclos que se interconectam. Pensamos nessa galeria também como uma narrativa cíclica de experiências interconectadas que, embora siga uma estrutura conduzida pela percepção pessoal de nosso próprio olhar, permite interpretações das mais diversas, e voltando-se sempre para o que acreditamos ser o mais íntimo da terra: suas essências, seu sangue. A reflexão sobre os modos de vida recai invariavelmente sobre a cisão do homem moderno com os ritmos naturais, sobre essa percepção de mundo superficial e polarizada, numa constante racionalização do mundo vivido. 
 
Ao entrar no universo humano, mostramos um homem que relaciona-se com o meio, antropomorformizando o espaço externo: ele extrai da natureza aquilo que necessita para sua manutenção, mas está em equilíbrio com ela. Vemos também que nessa relação do homem com o meio desenvolvem-se conhecimentos e trabalhos que são, em si, de ‘manutenção’ da própria vida, como colher, gerar, cuidar, plantar, alimentar, coletar, curar. Mas esses conhecimentos de manutenção da vida não são conhecimentos valorizados pelo homem moderno, perdendo-se na escala de valores que construimos para nós mesmos. 
 
A galeria segue curso e o foco das imagens é então no homem em si, nesse homem ainda não corrompido pelo ‘processo civilizatório’ fragmentar e higienista dos grandes centros urbanos: um homem que mantém conexões com suas raízes, tradições, com seus ritos e antepassados, e que muitas vezes são considerados primitivos e, suas comunidades e costumes, pouco evoluídos. Um olhar sobre esse homem, em qualquer lugar do mundo, nos faz entender como compartilhamos do mesmo barro, das mesmas características, dos mesmos sonhos, e a despeito de todas as diferenças religiosas, culturais, étnicas e sociais, nos assemelhamos entre nós no que nos é mais essencial. 
 
O relacionamento do homem com o universo invisível e espiritual também é uma das curvas desta narrativa. Essa incursão do homem no campo mais abstrato, sagrado e simbólico da vida se mostra tanto nas relações espirituais mais empíricas e ‘naturais’ como naquelas intermediadas por sistemas religiosos – que ironicamente podem até mesmo desviar o homem do sentido real e concreto de sacralidade da vida. Neste mesmo âmbito, a relação com a morte revela muito sobre como nos relacionamos com a própria vida. 
 
Da relação do homem com o imaterial surge a inevitável relação do homem com o material, com o mundo físico. Substâncias, matéria, objetos, animais, outros seres humanos – e nos damos conta de que é preciso restabelecer uma relação mais honesta e mais profunda entre nós e o mundo que vivemos, não interagindo com ele apenas de forma utilitarista, indireta ou intelectual, subjugando o que consideramos ser o mundo exterior. Encarceramos nossas mentes em credos e paradigmas que justificam o aprisionamento e a exploração, muitas vezes agressiva, de tudo o que está à nossa volta: plantas, animais e outros seres humanos. 
 
O homem que ainda se mantém vinculado a um ambiente natural, ao contrário do citadino, mantém uma relação mais muito mais profunda com o mundo em que vive – uma relação impulsionada pela experiência em si e pelo imaginário estimulado por essa experiência através da matéria e dos elementos naturais. A diferença qualitativa do ‘material vivido’ por esse homem é fundamental e essencial para a compreensão de nosso papel na natureza, uma vez que seu impacto psicológico é muito mais intenso e arraigado nos valores intrínsecos e primordiais que nos conectam como espécie. Tal relacionamento direto com o ambiente faz com que surja no homem do campo um nível de compreensão da ‘vida’ que não advém de mera elaboração intelectual, mas da experiência em si e principalmente do acúmulo dessas experiências por gerações e gerações. O homem que conserva esses conhecimentos tem mais ferramentas para seguir com a manutenção da própria vida na terra, assim como para ‘viver’ essa vida de fato. 
 
O homem moderno, em especial o citadino, abandonou a experiência direta com o mundo, abandonando também a absorção de conhecimentos de forma instintiva: tudo passa por uma elaboração abstrata da experiência, ou indireta, e essa, naturalmente, não carrega a mesma potência da  experiência direta ou vivida de fato. Vemos a arte confinada nos museus, os homens confinados em seus apartamentos e uma relação distante com todo e qualquer mundo ‘lá fora’. A própria arte contemporânea parece impor uma barreira intelectual que não permite a experiência direta do homem comum, enquanto o homem das cidades tenta impor o acelerado tempo humano|urbano à natureza. 
 
Neste ponto a galeria toma o rumo da expressão espacial do homem, transitando para ideologias  técnico-informacionais que adaptam todo o interesse e cultura à interesses econômicos, vinculando a noção de progresso ao acúmulo e a noção de produtividade ao excedente. Vemos claramente na manifestação do externo, nas paisagens, a fragmentação interna do homem e a cisão com o todo. Já não nos consideramos mais parte da natureza, e ela está ali apenas como recurso. Perdemos a noção dos ritmos, das proporções, da estética e de uma organização natural das coisas. Nossas expressões espaciais assumem um comportamento viral e as grandes cidades, vistas de cima, parecem se expandir como feridas na crosta terrestre. 
 
Obviamente que vida nas cidades é necessária e tem sua própria harmonia: muitas delas, independente da época ou localização geográfica, permitiram um equilíbrio bastante harmônico entre a intensa convivência social, a comodidade urbana e concentração de recursos. Quando perdemos essa noção de proporção e do valor real e natural das coisas, as cidades passam a ser não mais espaços de convivência, concentração e criação, mas sim espaços de isolamento, dissipação e alienação, nos apartando cada vez mais da natureza e de nós mesmos. Criamos um modo de vida destrutivo que não enxerga nada ao redor, nem nosso reflexo, nem nosso interior. Quando as leis do mundo não se baseiam mais nas leis da natureza, vemos o desmoronamento de tudo aquilo que foi edificado. Nos confrontamos com o abandono de nós mesmos, com a perda de conexão com a vida e o que vemos é um diagrama do desequilíbrio. 
 
A lição clara é que natureza prevalece: ela sobreviverá mesmo que nós não sobrevivamos à nós mesmos, prosseguindo com ou sem a nossa presença – e estamos hoje exatamente em um ponto fundamental em que as respostas exigidas pela própria vida determinarão se conseguiremos prosseguir e evoluir como espécie ou sucumbiremos à nós mesmos.
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