Os três elementos essenciais da cinematografia são iluminação, composição e movimento. O domínio da técnica é um fator importante, mas é preciso lembrar que se trata de um meio para um fim. Existe um certo fascínio pela tecnologia, que tende muitas vezes a adquirir uma importância muito maior do que é de fato. No final das contas, a verdadeira importância está na arte, e a tecnologia é relevante no sentido de que é preciso dominá-la a serviço do resultado na tela. Quando se trabalha com um diretor, trata-se de entender o que está na cabeça dele, e de decodificar isso visualmente na tela. Antes de fazer escolhas e definir o “como” fazer, é importante saber o “porque” como instrumento narrativo. Muito além da tecnologia, a cinematografia é uma arte que combina todas as artes, se nutre da música, da pintura, da dança, da arquitetura, da filosofia, e de tudo aquilo que sentimos.

Cinematografia é também algo intrinsecamente ligado à personalidade, à forma como você encara a vida e de tudo o que viveu. É algo que emerge de você. Não se trata de “abrir camera”, como se houvesse um mundo “dado” “lá fora”, mas de inter pretação, de incorporação de um ponto de vista. Não é tornar as coisas visíveis, mas, torná-las visíveis de um modo particular. Por isso o estilo é algo muito particular, pessoal, e se confunde com a vida, e se nossa função é interpretar, reproduzir a vida e contar histórias, devemos, antes de qualquer coisa, vivê-la intensamente e com muita atenção. É preciso ter algo a dizer, e dizê-lo em termos visuais, através de luzes, sombras, cores, texturas… Interpretar e representar o mundo envolve decisões, e essas se confundem com a própria forma de viver. Em determinado ponto de minha vida como fotógrafo, comecei a sentir falta de mais elementos para me expressar, e mesmo meus “contatos” ou “positivos” já apontavam para uma tendência de abordagem sequencial, então minha paixão por cinema me conduziu naturalmente para a cinematografia e, embora muito distintas em termos de produção e narrativa, ambas compartilham dos mesmos elementos de sintaxe. Por isso, muito de minha cinematografia aprendi como fotógrafo documental. Tal experiência me ensinou a extrair o melhor daquilo que se tem, do que as circunstâncias oferecem. Na busca por situações no documentário, aprendemos sobretudo com a falta de equipamentos e com as dificuldades, e as melhores soluções geralmente emergem da imaginação, da capacidade de improvisação e da aceitação das sugestões do acaso. Aprendemos com a vida.

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Aerofotografia e Aerocinematografia são atividades que tem por objetivo fotografar ou filmar utilizando aeronaves como aviões, helicópteros e até balões. Tanto para a fotografia quanto para a cinematografia, o modo de percepção e representação que envolve a perspectiva aérea é bem diverso da perspectiva monocular clássica, onde a relação com os dados do ambiente sempre se dá a partir do ponto de vista do homem de pé, vertical, observando o mundo horizontal diante dele.

A ausência de um ponto de vista determinado e fixo deixa a visão livre para atuar a partir de um ponto suspenso e móvel. Essa nova relação com o espaço desperta com a mobilidade do espectador uma sensação de liberdade, além de romper com a relação direta com o real, dissolvendo as possibilidades de identificação. Trata-se de uma nova realidade, uma realidade transformada em um mundo codificado a ser decifrado. A sensação de liberdade, o rompimento com a relação direta com o real, e a necessidade de decodificação de uma realidade transformada vão fornecer os instrumentos conceituais para as primeiras atitudes da abstração na arte, uma superação do humanismo terrestre.
Recentemente, a grande difusão dos drones na sociedade causou um grande impacto na experiência da humanidade com o espaço, uma verdadeira expansão da perspectiva do mundo, acessível, à princípio, a qualquer um. As implicações do uso de drones no mercado audiovisual hoje são imensuráveis. Os drones reduziram os custos de produção de imagens aéreas, simplificando seu uso em produções de cinema e TV, além de proporcionar possibilidades de perspectivas antes impensáveis até para aeronaves.

Particularmente, a descoberta do drone e sua utilização em meus trabalhos foi uma verdadeira revolução na minha experiência do espaço. Os limites de movimento se dissolveram, proporcionando uma sensação única de liberdade e descoberta, ampliando enormemente minhas possibilidades de criação e expressão. Por suas características de vôo, permite ir muito além dos Grandes Planos Gerais ou Establishing shots do cinema, expandindo dinamicamente meus instrumentos de linguagem cinematográfica, e convertendo-se muitas vezes na perspectiva de um travelling, grua ou steadicam.

Como geógrafo, de certa forma já estou acostumado a ver as coisas de uma perspectiva aérea, mas não se trata de ver as coisas de cima. Os drones, enquanto ferramenta, nos permitem ir muito além disso. Como qualquer ferramenta, ela pode ser usada de forma ”mecânica” e artificial. Como linguagem cinematográfica, a utilização de um ponto móvel, quase sem limites de movimento e alcance, nos libera para o que de fato representa a fotografia, uma dança no espaço, uma poesia. Na tela, isso ultrapassa uma mera “gravação” de algo e se traduz em uma interpretação e expressão de uma verdadeira experiência estética.